O mais novo livro do cantor Lobão é uma bomba. Até
aí não é grande novidade, o cantor não é conhecido pela cordialidade nas letras
de suas canções, nem mesmo no que tange ao tratamento dispensado a outros
artistas. Na verdade, o mais importante desse livro talvez não seja seu caráter
espetaculoso, mas a coerência e o rigor com que o artista instiga e diverte o
leitor.
Antes, porém, falemos do tipo textual do manifesto
– isso é importante para o entendimento da obra que ora se apresenta. O livro
é, em alguma medida, um reflexo de uma longa tradição entre os artistas – a
redação de um manifesto. Esse tipo de texto, muito comum no final do século XIX
até a primeira metade do século XX, foi fundamental para o entendimento das
Humanidades com relação à prática artística da língua, ou seja, da prática
literária. Para aqueles que viriam a ser conhecidos como pré-modernistas e
modernistas, o manifesto servia como uma carta de princípios sobre o
entendimento deles do que seria arte. No Brasil, isso virou uma verdadeira obsessão,
pois temos manifestos consecutivos até meados dos anos 1960 – para saber mais
sobre isso, procurem o conhecido livro de Gilberto Mendonça Telles, um imortal
da ABL que realmente trabalha em prol da cultura nacional.
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| Oswald de Andrade – se soubesse de sua importância para o futuro do Brasil, teria ficado somente com a cachaça. |
Há um outro dado importante com relação aos
manifestos – todos eles foram marginalizados por acadêmicos e artistas em sua
época para depois (ou seja, nos dias de hoje) serem tratados como textos
canonizados pelas universidades que estudam os problemas estéticos. Em minhas
andanças pelo meio universitário, ministrei cursos sobre os Manifestos europeus
e brasileiros com o fim de explicar exatamente o nocivo processo de canonização
desses textos. Creio que meus alunos, nesse período, aprenderam ao menos a
olhar os manifestos e suas consequências com certa desconfiança, o que é bom
para a evolução das Humanidades. Porém, aqui não é lugar para academicismos e
sim para um comentário malemolente sobre os escritos do Maldito…
O manifesto de Lobão aponta para um inimigo –
Oswald de Andrade. Para quem não conhece, Oswald é o pai do Modernismo
Brasileiro (e avô da Tropicália e de outros movimentos na música), foi o
artista que mais escreveu manifestos naquele período e uma das estrelas da
década de 1920 na literatura, além de boêmio, pegador e outras características
não muito politicamente corretas. O Oswald atacado por Lobão é o heroico
Oswald, aquele que ele viria a se tornar após o estardalhaço que foi o
Modernismo no Brasil. Para Lobão, esse Oswald é responsável por todo o tipo de
mal que existe hoje na intelligentsia da nação. O autor define essa intelligentsia
em vários níveis – político, econômico, cultural, acadêmico – e, para ele,
todos os níveis apresentam um congelamento cujo grande herói solar é Oswald de
Andrade.
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Se Oswald é uma espécie de Pedro da formação
cultural brasileira, este é o Evangelho – Macunaíma, de Paulo, ops, Mario de
Andrade.
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“Oswald de Andrade é o herói do quê?!” – o leitor
incrédulo pode perguntar. E trata-se de uma pergunta justa, pois nosso país
sofre de uma carência enorme de heróis no sentido amplo do termo e,
normalmente, nossos heróis são importados de outros países e/ou linguagens –
quase uma imposição do outro em nossas mentes. A oportuna visão heroica do Papa
nessa visita ao Brasil é o exemplo cabal do sistema de heroicidade que compartilhamos.
Aliás, este site é também prova cabal do argumento, mas Lobão insiste que até
esse fenômeno tem como herói principal Oswald de Andrade.
O autor defende a ideia de que a “brasilidade”
defendida por Oswald é um dos maiores erros que foram cometidos ao país durante
o século XX. Oswald entendia a brasilidade como o culto à preguiça, o elogio à
malandragem, o aproveitamento da corrupção como algo positivo, a antropofagia
cultural como desculpa a todo tipo de plagiário (mas visto de maneira positiva,
como algo grandioso), o preconceito velado como signo de decência, a
indistinção do que é próprio e do que é alheio. Enfim, Oswald elogia tudo
aquilo que compõe a grandiosa nação brasileira, colocando todos os seus
caracteres negativos como algo positivo, distintivo da nação. Quase um século
depois, Lobão pode afirmar que isso não é nada positivo, aliás, por mais que
não queira, ele é obrigado a concordar com Sérgio Buarque de Hollanda e seu Raízes
do Brasil. Para o cantor/autor, o problema é ainda mais grave, pois essas
características não são mais vistas como algo negativo e danoso – elas se
espalharam de tal forma na cultura brasileira que é possível que vejamos como a
verdadeira identidade nacional: negativa, danosa e contrária a seus próprios
irmãos brasileiros.
O manifesto de Lobão aborda tanto a política de
Brasília quanto a política ordinária dos tratamentos interpessoais.
Aparentemente, todas as organizações sofrem com a malandragem vista como algo
positivo, com leis que são reinterpretadas ao bel prazer (como a lei de
incentivo à cultura, ou a lei de incentivo a novos artistas) para que tudo
continue da mesma forma que antes – os medalhões recebendo dinheiro do Governo
(isenção de impostos é dinheiro do Governo sem burocracia, não sejamos
estúpidos) e os novos artistas tendo de fazer das tripas coração para conseguir
cantar numa churrascaria ou expor livros no porão de um museu. Nas palavras de
Lobão, a situação é tão escrota que, na época em que ele iniciou uma gravadora,
outros artistas (dentre eles, Caetano Veloso e Gilberto Gil) diziam que seria
impossível a criação de um selo independente nas terras brasileiras. Lobão
mostrou aos filhos de Oswald – os dois diziam-se herdeiros da antropofagia –
que não só era possível como era uma importante solução para vários eixos –
tornar-se independente, além de ser uma árdua tarefa, é, em alguma medida,
mostrar àqueles que acreditam no Mercado que há uma saída: arregaçar as mangas
pra arregaçar as pregas dessa lógica mercantil.
O livro é dividido, então, em oito partes. Nele,
temos poesia, crônica, a relação entre o artista e “A Liga”, uma análise sobre
o rock brasileiro, uma tirada sobre o RAP e uma carta-resposta ao “Manifesto
Antropofágico”, de Oswald. Apesar de a resposta propriamente dita a Oswald só
se apresentar no último capítulo do livro, o fantasma do modernista nos é
apresentado no prefácio e segue caminho pelas mais de 200 páginas. A
antropofagia como bem cultural do brasileiro é simplesmente demolida pelo autor
que convenciona a “brasilidade” a um projeto por vir – tal qual já havia feito
por José de Alencar, Machado de Assis, Sérgio Buarque de Hollanda, João Cezar
de Castro Rocha e tantos outros. Lobão, no entanto, estabelece a diferença –
aqui há uma brasilidade a ser combatida para a formação de uma nova identidade
nacional, nossa primeira formação de uma identidade se deu pelo estardalhaço e
pela corrupção que é inerente a todo o brasileiro, detectado o problema,
juntemos as mãos e façamos diferente…
Ficha Técnica:
Título – Manifesto do Nada na Terra do Nunca
Autores – Lobão
Número de páginas – 248
Editora – Nova Fronteira
Fonte: http://www.iluminerds.com.br/literatos-manifesto-do-nada-na-terra-do-nunca-de-lobao/ - acesso em 30/07/2014






