sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O Individualismo, o Liberalismo e a Democracia na Civilização Ocidental - Heranças do Cristianismo?!?!


Quatro artigos escritos por professores especialistas e doutores em sociologia que nos levam a compreender a influência do Cristianismo na formação da Democracia como a conhecemos, assim como também, nos impelem a reconceituar a importância do pensamento coletivo e a essência do pensamento individual na e para a consolidação da sociedade em que vivemos.

Os Professores Thiago Cortes, João Pereira Coutinho, Rafael Azzi e Isabel Aguiar dão uma verdadeira aula sobre o significado de individualismo, liberalismo e sobre a influência do Cristianismo na formação e entendimento da democracia no estado (governo) e na sociedade ocidental.

Boa Aula!!!



CONCEITO DE INDIVIDUALISMO E LIBERALISMO




Individualismo e Liberalismo: Valores Fundadores Da Sociedade Moderna


O individualismo é conceito que exprime a afirmação do indivíduo diante a sociedade e o Estado. Liberdade, propriedade privada e limitação do poder do Estado - eis a tônica do Individualismo. Há tendência em se vincular ou relacionar capitalismo e individualismo bem como socialismo e coletivismo. Mas aqui falarei do conceito expresso por Louis Dumont em, O individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna, onde ao lado do conceito de um indivíduo que constitui o valor supremo - caracterizando o individualismo - teremos o indivíduo que se encontra na sociedade como um todo, caracterizando o holismo (estudo que busca o entendimento integral dos fenômenos). É do indivíduo que não pode ser submetido a ninguém, sendo as suas regras pessoais que movem a sua existência, que tratarei.

O individualismo é o mais ocidental dos valores. Esta primazia do indivíduo constitui o cerne da herança judaico-cristã. Louis Dumont acentuou como o individualismo se tornou o valor fundador das sociedades modernas. Quando o indivíduo se encontra na sociedade como um todo, trata-se de holismo e não individualismo. Neste sentido, os dois conceitos se opõem. E, em sua obra Louis Dumont apresenta um estudo sobre o desenvolvimento do conceito moderno de indivíduo e conclui: "se o individualismo deve aparecer numa sociedade do tipo tradicional, holista, será em oposição à sociedade e como uma espécie de suplemento em relação a ela, ou seja, sob a forma de indivíduo-fora-do-mundo. Será possível pensar que o individualismo começou desse modo no ocidente? É precisamente isso o que vou tentar mostrar; quaisquer que sejam as diferenças no conteúdo das representações, o mesmo tipo sociológico que encontramos na Índia - o indívíduo-fora-do-mundo - está inegavelmente presente no cristianismo e em torno dele no começo da nossa era."

Da compreensão que exprime a afirmação do indivíduo ante a sociedade e o Estado temos que o individualismo se opõe ao nacionalismo. Louis Dumont nos diz o seguinte: "Alguém opõe ao individualismo o nacionalismo, sem explicação. Sem dúvida, é preciso entender que o nacionalismo corresponde a um sentimento de grupo que se opõe ao sentimento "individualista". Na realidade, nação, no sentido preciso e moderno do termo, e o nacionalismo - distinto do simples patriotismo - estão historicamente vinculados ao individualismo como valor. A nação é precisamente o tipo de sociedade global correspondente ao reino do individualismo como valor. Não só ela o acompanha historicamente, mas a interdependência entre ambos impõe-se, de sorte que se pode dizer que a nação é a sociedade global composta de pessoas que se consideram como indivíduos."

LIBERALISMO
O Liberalismo é conceito que se caracteriza por alguns princípios, dentre os quais o individualismo e o igualitarismo. Segundo Dumont, "os princípios fundamentais da constituição do Estado (e da sociedade) devem ser extraídos, ou deduzidos, das propriedades e qualidades inerentes no homem, considerado como um ser autônomo, independentemente de todo e qualquer vínculo social ou político."

Assim, o liberalismo é individualista, defendendo a afirmação do indivíduo ante a sociedade e o Estado; é igualitário, admitindo e garantindo a igualdade do homem enquanto pessoa; é universalista, defendendo a homogeneidade moral da espécie humana; é otimista, admitindo o aperfeiçoamento das instituições sociais de cada sociedade. "O valor infinito do indivíduo é, ao mesmo tempo, o aviltamento, a desvalorização do mundo tal como existe...". Assim, o liberalismo defende a liberdade como direito intrínseco de todo indivíduo e toda autoridade é limitada por esse direito.

O liberalismo é uma teoria ou doutrina de liberdade política e de liberdade econômica. De conformidade com os quesitos anteriores, orienta a ação do Estado e de qualquer autoridade, visando ao bem comum, sem ferir os direitos individuais.

Não se pode falar em liberalismo sem partir das grandes transformações que propiciaram o surgimento do mundo moderno que, no individualismo, encontrou seu fundamento. A valorização do homem – promovida pelo humanismo – aliada aos princípios da propiciados pelas mudanças nas concepções religiosas, faz surgir o liberalismo que, por sua vez, prepara o campo fértil para o surgimento da democracia e também para o desenvolvimento do capitalismo. Antes quase não se valorizava o "indivíduo" pois, na Idade Média, a cultura era impessoal, segundo Dumont, do tipo holista.

Dentro desse tema, muitos são os aspectos que poderiam sem abordados, partindo-se desse momento da valorização do homem. Pode-se, portanto, partir da contribuição daqueles que desencadearam esse processo, dando-lhe impulso e consistência, até chegar ao ponto de ser ( o liberalismo ), em certo momento, confundido com o modelo da própria civilização ocidental. O pensamento de Santo Agostinho é central para este problema e seu gênio pressentiu o desenvolvimento vindouro.

Quanto à democracia, abandonada e quase esquecida depois da Grécia Clássica, é do liberalismo que ela evolui na Idade Moderna. Seu aparecimento se dá entre os puritanos ingleses, devido a necessidade de assegurar a legitimidade de seus representantes e da organização das suas comunidades.

Esta nova maneira de gerenciar os assuntos internos das seitas e igreja é estendida para a esfera política e aos interesses econômicos, firmando cada vez mais essa nova doutrina que, a partir daí, muito mais que uma filosofia, passa a assumir o caráter de uma ideologia. Assim, ao mesmo tempo em que se levantam as questões sobre os direitos e garantias do cidadão, impõe-se a necessidade de discutir e justificar o direito da propriedade. Direito, igualdade e garantias são elementos de fundamental importância para a afirmação da propriedade. Seus detentores buscam e passam a influir na administração e nos assuntos do Estado. Em oposição ao princípio do Direito Divino, o Governo passa a ser encarado sob novo ângulo, até chegar ao ponto de ser considerado como representante dos eleitores. Esses eleitores (inicialmente apenas os proprietários) têm interesse em influir no Governo pois, afinal de contas, são eles que têm algo a perder. E é a partir daí que se compreende porque a legislação eleitoral se preocupa, no início, com a representação baseada nas posses.

As grandes transformações empreendidas ao final da Idade Média têm como ponto de fundamental importância, como já foi dito, a valorização do homem. Humanismo e Reforma, principalmente, trazem à luz a pessoa humana, que passa a ser o centro do Universo, em que busca conhecer esses valores, e onde alcança posição de destaque a discussão do tema da liberdade.




Onde os liberais e o Estado policial se encontram
Por Rafael Azzi – 10/03/2014




John Locke (1632-1704): sua influência sobre Constituição dos EUA é tão expressiva que, por vezes, é considerado um “pai fundador” honorário

Para John Locke, pai do liberalismo, Estado não deve promover solidariedade, mas garantir segurança e propriedade. Predomínio desta concepção ameaça, hoje, a própria democracia.  (Rafael Azzi)


Na história da humanidade, muitos filósofos se interrogaram sobre a relação entre a natureza humana e a constituição da sociedade. Aristóteles, por exemplo, acreditava que o homem é um animal político. Para ele, a organização dos indivíduos em núcleos sociais mostra-se um processo tão natural quanto o é para as formigas na natureza. Assim, por extensão, o homem apenas se realiza plenamente por meio da atividade política e da participação ativa nas decisões do Estado.

De acordo com o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau, a natureza humana é das mais adaptáveis. O homem possui uma espécie de natureza indeterminada, moldável e maleável. Entretanto, o filósofo reconhece que existe um sentimento básico na natureza humana, compartilhado por outros primatas superiores: a compaixão. Para ele, o homem não é um animal racional, e sim um animal sensível, empático. A recente descoberta científica dos neurônios-espelho parece ter, de alguma forma, corroborado essa ideia.

O problema para Rousseau é que, devido à maleabilidade de sua essência, rapidamente o ser humano se adapta às condições da sociedade. O teórico francês argumenta que o egoísmo e o individualismo são construções modernas estimuladas pela constituição da sociedade burguesa; que, por sua vez, baseia-se na propriedade privada e nas ações justificadas pela percepção do lucro individual. Assim, esta não seria a verdadeira natureza humana, mas uma distorção provocada pela exacerbação de determinados valores sociais.

A partir da perspectiva rousseauniana, a principal função do Estado seria a de, através de políticas públicas com ênfase em educação, por exemplo, favorecer a emancipação política do cidadão para que ele possa resgatar sua empatia natural. Nesse sentido, pode-se afirmar que as noções de cidadão e de cidadania, como se conhece na atualidade, são decorrentes dessa leitura. Conceitualmente, cidadão configura alguém que atua na esfera pública ou política, com empatia para com o próximo e para com a coletividade.

De alguma forma, as ideias de Rousseau auxiliaram a construção da nossa sociedade moderna. Entretanto, o pensamento de John Locke sobre a natureza humana e o papel do Estado é o que mais encontra repercussão no mundo contemporâneo. Sua influência sobre a Constituição dos EUA é tão expressiva que, por vezes, é considerado como um “pai fundador” honorário. Suas teorias formam as bases do pensamento liberal e auxiliaram na construção da ideologia do capitalismo.

Para Locke, existem três direitos considerados naturais: a vida, a liberdade e a propriedade. Em um estado de natureza, cada indivíduo busca preservar tais direitos e, quando se sente prejudicado, atua como juiz, júri e executor dessas leis naturais. Rapidamente, essa situação desencadeia uma guerra coletiva, de todos contra todos. Na perspectiva lockeana, o Estado surge então para evitar o caos e a desorganização.

Assim, o indivíduo concorda em abrir mão de uma parcela de sua liberdade para que o Estado possa fornecer segurança e impedir uma situação conflituosa. Nesse sentido, o Estado não é considerado como algo natural ou um instrumento para desenvolvimento da empatia humana. Ao contrário, ele é considerado de forma negativa, que limita a liberdade humana, um mal necessário. Umas das consequências dessa visão é a desvalorização da atividade política. A relação entre o Estado e o indivíduo é pensada somente como uma relação de troca, uma interação comercial. O cidadão cede parte de sua liberdade; e, em troca, o Estado defende seus direitos, sua propriedade privada e seus negócios.

Em sua reflexão sobre a propriedade privada, Locke afirma que ela tem sua origem no trabalho sobre o bem comum. Através do trabalho, o homem torna-se dono por direito “natural” daquilo que antes era comum, de todos. Esse tipo de argumentação forneceu, por exemplo, a justificava para a tomada das terras dos povos nativos pelos colonizadores americanos. As comunidades de povos nativos possuíam outro tipo de relação com a terra considerada de uso comum, desconhecendo o conceito de propriedade privada. Na interpretação dos colonos, tal fato permitia a invasão e a tomada das terras indígenas. Talvez esse ponto de vista também explique por que aqui, no Brasil, líderes extrativistas e índios com uma concepção coletiva e conservacionista do uso da terra são mortos a todo o momento por grileiros e fazendeiros.

Além disso, nesse sentido, a apropriação e a exploração da natureza tornam-se ações não apenas possíveis, mas constituintes do objetivo “natural” do homem. A relação de posse e a exploração da natureza nascem dessa concepção. Diversas empresas, como a Monsanto – que, por exemplo, solicitou e conseguiu a patente do cultivo convencional de brócolis – seguem esse paradigma, buscando o lucro pela privatização do que é de uso comum.

Analisar os escritos de Locke sobre indivíduos pobres também pode auxiliar a entender a sua contribuição no estabelecimento de um tipo de visão política contemporânea. Para o filósofo inglês, os desfavorecidos necessitam ser controlados e disciplinados. Como solução para a questão da miséria, Locke defende o estabelecimento de um conjunto especial de leis que vão da coerção à punição para os mais pobres. Este tipo de pensamento parece salientar que os mais pobres nunca serão totalmente incorporados à sociedade, a não ser como força de trabalho a ser devidamente explorada.

A ideia de “Estado mínimo” se mostra, da mesma forma, um desdobramento das noções apresentadas por Locke. De acordo com os teóricos do Estado mínimo, a única função do Estado é defender os direitos individuais e a propriedade privada. O problema com tal ponto de vista é que a função do Estado, de dar segurança à propriedade privada, pode rapidamente se tornar hipertrofiada. O Estado, então, passa a atuar como um braço armado dos negócios. Essa é a tese defendida por um major-general do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos chamado Smedley Butler, um dos marines mais condecorados da história americana. Em seu texto War is a Racket (de 1935), o major afirma que todas as guerras dos EUA, no período em que ele atuou, foram motivadas simplesmente pela defesa dos interesses comerciais de empresas, indústrias e banqueiros.

Considerar o Estado simplesmente como promotor da segurança pode também fomentar políticas militaristas, repressivas e agressivas dentro da própria sociedade. Temas complexos que poderiam ser tratados como assuntos de saúde pública ou de educação passam exclusivamente para a pauta da segurança pública. Tal quadro permite que o Estado liberal se transforme em um Estado policial. Essa perspectiva desfaz a possível contradição que reside no fato de um dos países economicamente mais liberais do mundo apresentar uma das maiores taxas de presos por habitante, além de produzir o maior esquema de espionagem de civis já visto.

Sob esta mesma ótica, é possível analisar, por exemplo, o modo como foi conduzido o recente processo de pacificação das comunidades da cidade do Rio de Janeiro. A ocupação policial das favelas e a instalação das “Unidades de Polícia Pacificadora” (UPPs) são um projeto que se integra aos grandes empreendimentos urbanos voltados para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas e a valorização do mercado imobiliário carioca. A presença do Estado nestas localidades parece se circunscrever a uma estratégia de rígido controle do território, não visando a ações ou políticas efetivas de promoção de direitos básicos como saúde, educação ou saneamento, mas a garantir a proteção do capital. Enquanto dentro das comunidades são frequentes as denúncias de abusos e violência por parte da Polícia Militar – a única parcela do Estado que efetivamente ali está presente – nos bairros próximos aumenta a especulação imobiliária.

Assim, a concepção sobre o homem se mostra um reflexo da perspectiva sobre a função do Estado. De acordo com as ideias desenvolvidas por Locke, os indivíduos convivem como inimigos em potencial, que se unem apenas pelo interesse egoísta. Dessa forma, um Estado construído sobre essas bases logo caminha para o caminho da repressão, da militarização e do policiamento ostensivo. É possível que este seja o momento de repensar a interação entre os indivíduos e o Estado, de maneira que o estímulo ao diálogo conduza à esfera da cooperação entre as pessoas, pondo em prática, finalmente, a natureza empática do ser humano, até então adormecida.



Por João Pereira Coutinho - 20/05/2014  02h00

“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mateus 22:21)

Leio nas notícias que um tribunal do Sudão condenou uma mulher à morte. Mas, na hora da sentença, os juízes confrontaram-se com um pormenor: a referida mulher está grávida de oito meses. O tribunal foi salomônico: a mulher pode dar à luz primeiro e só depois ser enforcada. Justíssimo.

Mas qual foi o crime hediondo de Meriam Yehya Ibrahim? Eis a história, contada pelo "Daily Telegraph": filha de pai muçulmano, Meriam foi criada como cristã pela mãe. E, na idade adulta, casou com um homem da mesma fé.

O tribunal não se comoveu. Para começar, casar com um homem cristão constitui crime de adultério. Meriam, antes da forca, terá direito a cem chibatas pela ousadia.

E, finalmente, quem tem pai muçulmano não pode cometer crime de apostasia, ou seja, de renúncia à fé islâmica. Meriam defendeu-se da acusação, jurando que sempre foi cristã e que não renunciou a fé nenhuma. O tribunal sudanês discorda. A morte é o único corretivo para semelhante traição.

O caso está a horrorizar vários países ocidentais, que exigem ao governo de Cartum respeito pela liberdade de religião, incluindo o direito de mudarmos as nossas crenças mais profundas.

Como é evidente, os países ocidentais estão a exigir uma proeza tipicamente ocidental que o radicalismo islamita não é capaz de entender. E não é capaz de entender porque, ao contrário do que sucedeu no Ocidente, não houve a grande separação entre o temporal e o espiritual que permitiu a emergência do Estado liberal moderno.

Qualquer aluno de ciência política conhece essa história: depois de lutas fratricidas entre o papa e o imperador, e depois de lutas igualmente sangrentas entre católicos e protestantes na Europa pós-Reforma, os primeiros filósofos liberais entenderam que a melhor maneira de garantir a paz e a ordem implicava remeter as crenças religiosas para a esfera privada.

Como afirmava John Locke, um desses liberais, não é função do governo cuidar da alma dos homens. Porque ninguém tem o direito de invadir a consciência do outro, obrigando-o a acreditar (ou a não acreditar) num credo particular.

Para Locke, o valor da tolerância significava que o Estado deveria tolerar diferentes concepções do bem, desde que tais concepções não tentassem tiranizar o espaço público.

É precisamente essa história que é revisitada em "Inventing the Individual: The Origins of Western Liberalism" (inventando o indivíduo: as origens do liberalismo ocidental), um dos grandes livros de filosofia política que li recentemente.

O autor, Larry Siedentop, dispensa apresentações: com uma carreira emérita no Reino Unido, o professor Siedentop mostra como na origem do liberalismo está uma particular concepção de "indivíduo": um ser dotado de certos direitos inalienáveis, a começar pelo direito de acreditar no credo que entende.

Só que a originalidade de Siedentop está na sua tese aparentemente paradoxal: esse "individualismo" só foi possível por influência do próprio cristianismo.

Quando os liberais clássicos usam certos conceitos nos séculos 17 e 18 —a "dignidade da pessoa humana", a "fundamental igualdade moral de todos os seres" etc.—, esses autores estão a beber diretamente na fonte religiosa medieval.

E sobre a grande separação que permitiu conceder a Deus o que é de Deus e a César o que é de César (um preceito obviamente bíblico), essa separação começou por ser reclamada pela própria igreja, muito antes de Locke escrever os seus ensaios: a Reforma Gregoriana do século 11 foi o exemplo supremo de como o papado procurou estabelecer limites ao poder do imperador em matérias da exclusiva autoridade da igreja.

Quando, séculos depois, John Locke se insurge contra o alegado "direito divino dos reis", o ilustre filósofo está apenas a repetir a velha luta antiabsolutista de Gregório 7º.

O livro de Siedentop não deve apenas ser lido pela sua magistral lição de filosofia política. Ele também relembra, a crentes e a não crentes, que os Estados laicos que hoje existem no Ocidente não seriam possíveis sem a herança de uma tradição religiosa específica.

A infeliz Meriam Yehya Ibrahim, condenada à forca pelo governo sudanês, faz parte dessa tradição. Infelizmente, teve o azar de nascer e crescer na tradição errada.






Em um saudoso encontro com ex-colegas do curso de sociologia – os poucos que restaram – a temática da fé e da religião tomou conta da conversa. Deus e sua melhor criação, a mulher, sempre habitam as conversas das quais, muito tempo depois, ainda teremos lembranças.

E lembro-me de meu amigo Rodolfo, de formação trotskista, declarar de forma altissonante, como se fosse uma constatação um tanto óbvia, que quem despreza a tradição cristã sofre de uma pobreza intelectual, espiritual (no sentido profundo do termo), cultural e literária.

Ele tem toda razão. Não posso deixar de notar, contudo, sua coragem em fazer tal afirmação em uma época na qual a moda nos círculos intelectuais é o desdém calculado contra o cristianismo, a tradição sob a qual erigimos nada menos do que a nossa civilização!

Hoje não existe preconceito moderno mais arraigado no meio intelectual do que aquele que deprecia o cristianismo como uma força repressora e o Ocidente como um projeto de sociedade que falhou, por supostamente esmagar a liberdade individual.

Uma absoluta mentira – do ponto de vista histórico, sociológico e religioso.

Vamos aos fatos: não existe outro caso tão afortunado na História da humanidade de uma sociedade na qual indivíduos portadores de diferentes crenças e praticantes de distintos modos de vida puderam se reunir para conviver sem abrir mão de suas identidades.

Isso já foi dito, com vocabulários conceituais diferentes, por filósofos e sociólogos como Karl Popper, Max Weber, Norbert Elias, entre outros.

A civilização ocidental é singular em sua capacidade de agregar e acomodar indivíduos, apesar das suas “cosmovisões em conflito”, para usar uma expressão do teólogo protestante Ronald Nash, que sintetiza o fato de que o Ocidente é um modo de vida que abriga diversos modos de vida, a partir de uma base comum que é a herança cristã.

Sim, lamento informar aos ateus militantes de plantão: as instituições modernas ocidentais em sua combinação sofisticada de liberdade e responsabilidade individual, em sua visão madura de que as escolhas individuais devem ser respeitadas, mesmo que delas discordemos, é um reflexo de uma criação genuinamente cristã, que é a própria ideia de indivíduo.

Em outras palavras, quero lembrar que o cristianismo marca o nascimento do indivíduo e da tradição de liberdade do Ocidente. Foi o cristianismo que reconheceu a soberania do indivíduo, a sacralidade da sua consciência e seu inviolável livre-arbítrio.

Nenhuma outra tradição religiosa havia reconhecido o status existencial dilemático do homem, ou seja, o fato de que existir, para nós, seres dotados de consciência, significa enfrentar dilemas de toda sorte e fazer escolhas na solidão de nossas consciências.

A descoberta desse paradigma existencial gerou uma mudança cultural profunda, que foi reconhecida e consolidada como um novo modo de organização civil na forma de instituições como o habeas corpus, os direitos civis e as liberdades de expressão e de crença.

Ao ateu militante, sugiro a leitura do artigo “Laicos, Graças a Deus”, de João Pereira Coutinho, que aborda um estudo acadêmico (e agora livro) interessantíssimo, “Inventing the Individual: The Origins of Western Liberalism” (inventando o indivíduo: as origens do liberalismo ocidental), de autoria do erudito historiador e filósofo político (e ex-aluno de Isaiah Berlin) Larry Siedentop.

Siedentop, como sintetiza Coutinho, demonstra em sua pesquisa histórica um fato desagradável aos detratores do cristianismo: a origem do nosso “mobiliário” institucional moderno, dos nossos direitos civis e liberdades individuais está na tradição cristã.

O liberalismo herdou do cristianismo “uma particular concepção de indivíduo: um ser dotado de certos direitos inalienáveis, a começar pelo direito de acreditar no credo que entende”.

As noções cristãs de livre-arbítrio e de responsabilidade pessoal deram substância às instituições e dispositivos que construímos ao longo da História para organizar a vida civil.

Para além da vida civil, livre-arbítrio e responsabilidade pessoal se projetaram como questões centrais da política moderna. Tais noções foram reinterpretadas, em suas versões modernas, como direitos e deveres, mas sua origem é inegavelmente cristã.

No cristianismo, desobedecer a Deus é sempre uma escolha possível. E bastante utilizada pelos personagens bíblicos. Mas existem conseqüências. E todos arcam com elas. Essa ideia fundamental informou a consciência ocidental em sua busca de ordem e liberdade.

A ideia de que cabe ao indivíduo fazer suas escolhas e arcar com elas é uma legítima herança cristã. O Deus dos cristãos jamais impôs suas leis morais ou transgrediu a esfera privada de decisão dos homens, mesmo quando suas decisões os levaram às ruínas.

O cristianismo pautou o Ocidente com suas noções fundamentais de livre-arbítrio e de responsabilidade pessoal. O indivíduo é livre para fazer todas as suas escolhas e, na mesma medida, é responsável pelas consequências de cada uma delas.

Legado em perigo

Hoje este legado está em perigo por conta do fenômeno descrito por José Ortega y Gasset, em “A Rebelião das Massas”, que é a ascensão violenta do homem-massa, colonizado pelos novos paradigmas mentais do coletivismo social.

E mais: as ideologias políticas, por seu turno, querem destruir este legado para apagar o indivíduo da História, substituindo-o pela classe, raça, congregações por gêneros sexuais ou qualquer outra abstração tribal.

No lugar do indivíduo, querem o homem-massa, selvagem, disforme, reduzido ao salário que recebe ou à sua origem social, o que o torna indissociável de uma classe, turba ou categoria.

As ideologias interditam a consciência moral à qual o cristianismo faz constantes referências e reinterpretam os dilemas morais individuais (que permeiam as parábolas bíblicas) como meras “questões políticas”, “econômicas” ou imperativos de classe.

O cristianismo colocou o indivíduo no trono, mas fez sua cabeça pender com toda a sorte de dilemas morais, existenciais e religiosos. Somos reis intranquilos, submetidos ao que Cristo apontou como nosso bem maior, mas fonte de nossas tragédias: o livre-arbítrio.

As ideologias modernas, por sua vez, prometem paz e tranquilidade desde que nos livremos desta coisa ultrapassada que é consciência individual, substituindo-a pela consciência tribal.

Nós nunca mais sentiremos culpa, pois a culpa é um estado da consciência individual. Todos os nossos atos poderão ser explicados e justificados por causas externas, pela nossa origem social, nosso status econômico, etc.

Nesta troca diabólica, jogaremos fora não apenas nossa vida interior, nossa capacidade de agir moralmente, como também a rica experiência de liberdade e soberania individual que funda o Ocidente para embarcamos no trem das doutrinas coletivistas, do tribalismo, do igualitarismo que nos transforma em uma pasta humana indiferenciada.

Querem que sejamos todos servos para que não existam mais reis.

Defesa da Civilização 

Voltemos ao encontro dos amigos sociólogos. O nosso ritual anual de choque de perspectivas políticas e filosóficas, precedido de um torneio bem humorado de insultos. Mas, daquela vez, estávamos falando a mesma língua.

Quatro sociólogos falando sobre religião, uma constatação geral: a falta de sensibilidade religiosa é uma praga da modernidade, que deixa as pessoas intelectualmente mais pobres e iludidas com a sua orgulhosa ignorância.

Eis o meu adendo: o cristianismo não apenas é intelectualmente mais rico e profundo do que qualquer ideologia: ele é, também, moralmente superior.

A cosmovisão cristã é de uma riqueza comovente – e de uma complexidade que escapa ao olhar apressado dos seus críticos arrogantes –, pois abrange várias áreas do pensamento humano: teologia, antropologia, epistemologia e a ética.

Poderia elencar outras, mas acredito que este é o núcleo duro da fé cristã: uma visão sobre o homem (antropologia) em sua busca por Deus (teologia), seu fracasso em encontrá-Lo por meios próprios e sua chance de se redimir pela graça (ética).

O cristianismo também nos fala uma verdade poderosa: somos todos estruturalmente falhos e pecadores. Mas Cristo nos ama e veio nos salvar mesmo assim. E é por isso que devemos suportar uns aos outros, conviver e compartilhar, apesar dos erros alheios. A cultura do “perdão e da ironia”, da qual fala Roger Scruton.

O cristianismo nos apresentou ao universo moral do livre-arbítrio, nos presenteou com uma civilização fundada na liberdade, no perdão e na generosidade.

Em uma época de relativismo moral disseminado, de “desconstruções” de tradições e costumes, é preciso que afirmemos que o cristianismo é o grande e insubstituível pilar sob o qual construímos nossa civilização.

Apaguemos da História a separação que Cristo fez entre igreja e o Estado, esqueçamos da advertência atemporal de que um dia prestaremos contas dos nossos atos a Deus, deixemos de lado os deveres de caridade que o próprio Cristo ensinou, e o que restará da nossa sociedade será apenas uma massa humana formado por estranhos e inimigos.

Creia você ou não em Cristo, saiba que o conjunto de liberdades civis do qual você desfruta é produto do conceito cristão de livre-arbítrio. Reconhecer a tradição cristã, portanto, significa reconhecer este modo de vida civil do qual você é beneficiário.

Mais do que reconhecer a tradição cristã como uma espécie de “patrimônio histórico da humanidade”, devemos lembrar que nosso modo de vida não durará muito tempo se o cristianismo – enquanto força social e cultural – deixar de existir.

Estaremos em perigo se jogarmos fora nossa identidade cultural para fazer tábula rasa da nossa História, a fim de salvar nossas cabeças dos intolerantes – vide as crises gravíssimas que atormentam a Europa pós-cristã.

É um erro fatal negar nossa História, nossa fé e a verdade sobre nós mesmos, em nome dos dogmas do multiculturalismo, do relativismo e do politicamente correto.

Nós, inquilinos da modernidade, devemos lembrar-nos disso como um alerta de vida e de morte: sem cristianismo, não existe civilização.

*******

Interessante, não?!?!?!

E para finalizar e colocar um pouco mais de pimenta, deixo o comentário do Economista e também professor, Rodrigo Constantino:


20 de maio de 2014

...

A tese não é nova, mas em tempos de confusão entre estado laico e anti-religioso (especialmente anti-cristão), trazer o tema à tona é sempre desejável. As conquistas liberais do Ocidente, resultado de muita luta e debate, da coragem de pensadores como Voltaire, David Hume e John Locke, tiveram como pilares originais a própria Igreja e o cristianismo, como sustenta Larry Siedentop, professor de Oxford. Diz Coutinho:

Quando os liberais clássicos usam certos conceitos nos séculos 17 e 18 —a “dignidade da pessoa humana”, a “fundamental igualdade moral de todos os seres” etc.—, esses autores estão a beber diretamente na fonte religiosa medieval.

E sobre a grande separação que permitiu conceder a Deus o que é de Deus e a César o que é de César (um preceito obviamente bíblico), essa separação começou por ser reclamada pela própria igreja, muito antes de Locke escrever os seus ensaios: a Reforma Gregoriana do século 11 foi o exemplo supremo de como o papado procurou estabelecer limites ao poder do imperador em matérias da exclusiva autoridade da igreja.

Quando, séculos depois, John Locke se insurge contra o alegado “direito divino dos reis”, o ilustre filósofo está apenas a repetir a velha luta antiabsolutista de Gregório 7º.


Por que a tradição liberal, que coloca o indivíduo como finalidade em si mesmo, vingou no Ocidente, enquanto boa parte do mundo oriental continuou sob o jugo do coletivismo, muitas vezes misturando estado e fé? Eis a questão que deve ser respondida, e sem dúvida não é uma resposta simples ou fácil. Mas parece inegável que o próprio cristianismo teve sua cota de contribuição.

Independentemente da aceitação ou não dessa premissa, de que tal liberdade individual depende do legado cristão, parece claro que não é nada trivial chegar lá e, principalmente, preservar tal conquista. Mesmo o Ocidente pariu, em pleno século 20, ideologias coletivistas nefastas como o comunismo e o nazismo, substitutos da religião que voltaram a depositar no estado poder absoluto, total, anulando por completo o indivíduo da equação.

O debate me interessa muito pois, mesmo sendo um liberal sem crença religiosa, receio bastante a postura atual de muitos colegas liberais e libertários, que adotaram um ateísmo militante que julgo infantil e contraproducente. O alvo principal, naturalmente, é sempre o cristianismo, parte inseparável da tradição ocidental, a mais liberal de todas.

O tiro pode sair pela culatra. O ataque às religiões pode parir uma alternativa “laica” autoritária. Esses liberais acabam fazendo um papel de inocentes úteis da esquerda revolucionária, que sempre viu no cristianismo um grande obstáculo ao seu projeto totalitário. O deus secular da era moderna acaba sendo o estado, cujo avanço sobre os mínimos detalhes de nossas vidas tem sido evidente.

Além disso, em nome da tolerância plena, os relativistas acabam aderindo a uma intolerância justamente contra a principal religião ocidental. Tanto faz o islã como o cristianismo? A pobre mulher do Sudão discordaria. Receberá chibatadas e depois será enforcada pelo “crime” de ter a fé “errada”. O islã ainda não passou por seu Iluminismo. Até que ponto isso tem ligação com a própria religião e seu livro sagrado, uma vez que o Corão, ao contrário da Bíblia, não defende em claras passagens a divisão entre estado e religião?

Os Números da Lavajato ou A CONTA DO PT NO PODER



E no meio dessa lambança toda, você ainda acha que o LULA e sua trupe são INOCENTES???









ACORDA POVO BRASILEIRO, senão o bicho volta e acaba de vez com TUDO...


...inclusive com você!!!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Política nova ou Atos da velha escola??? Será que ele já ouviu falar de "Mobilidade Urbana"???

Prefeito de Goianésia, Renato de Castro (PMDB), no trator que destruiu ciclovia na cidade | Foto redes sociais


O novo com cara de velho


Nada mais metafórico do a que foto do prefeito de Goianésia (GO), Renato de Castro (PMDB), sobre o trator que destruiu a ciclovia na Avenida Goiás. Representa o total descompromisso com o patrimônio público e os recursos do erário. Renato é um político em início de carreira, mas como se vê a renovação de nomes não garante o aperfeiçoamento de práticas políticas.

Enquanto o mundo busque saídas alternativas para a mobilidade urbana, o “novo” prefeito disse ao O POPULAR que “o motivo principal (da destruição da ciclovia) é a necessidade de espaço para carros e motos” e que ela aconteceu tão rápido, quatro dias após sua posse, porque era “compromisso de campanha. Eu falava que ia tirar (a ciclovia) no primeiro dia de mandato. Atrasei quatro dias ainda”.

Renato de Castro revela nessas duas frases sua visão ultrapassada sobre mobilidade urbana e falta de preparo para liderar uma eficiente gestão pública. As decisões de um prefeito comprometido com a melhoria nos serviços públicos e em ajudar na construção de uma cidade com qualidade de vida a seus munícipes não podem se sustentar em meras promessas populistas e desastradas, como essa de destruir uma ciclovia no primeiro dia de mandato, sem nenhum estudo técnico sobre sua viabilidade.

Cileide Alves - Jornalista, especializada em política, e mestre em História pela Universidade Federal de Goiás. cileide.alves@gmail.com

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Alameda Cultural: Um Pouco de Polêmica : Limonada Azeda

Ler é saber...

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