domingo, 13 de abril de 2014

Violência no Futebol - Insatisfação do Público ou Armação Política?

Assistindo a uma reportagem em que o jogador Fred, do Fluminense, num desabafo, expõe a grande pressão que  sofre o atleta, principalmente do futebol, quando o desempenho da equipe fica aquém do esperado pelos torcedores, mais especificamente das torcidas organizadas, que por vezes expressam sua insatisfação de forma violenta e ameaçadora, levando o atleta até a pensar em mudar de equipe, de estado ou até mesmo de país, vislumbramos nas entrelinhas um problema que está fundado na inércia do poder público quando o assunto é povo.


Observando a fala e o sentimento expressado, quando Fred demonstra a alegria de jogar, o amor pela família, o medo de levar os filhos aos gramados e os riscos de ser agredido diante deles, e, atentando também, que essa violência tem aumentado exponencialmente nos estádios e muito mais nas periferias, locais de famílias humildes e de pouco estudo, percebe-se que isso acontece onde o Estado tem pouca ou nenhuma penetração, não porque o  povo não precise, mas por que dessas comunidades não há o retorno financeiro ou político que os Deputados, Senadores e líderes do Executivo buscam para se perpetuarem em suas vidas públicas. Nota-se, também, um desvio de foco bizarro, quando o assunto que deveria realmente ser levado à plenário é a inércia dos poderes públicos quanto a todos os problemas políticos, sociais e estruturais pelos quais o país está passando.

Esse medo e essa  insegurança, demonstrados por Fred, de continuar na labuta e levar para casa o pão nosso de cada dia, está incrustado no coração de todos nós que saímos pela manhã, mas não temos a certeza de retornar ao fim do dia. Não há garantias institucionais que garantam isso. Existem as Constitucionais, na forma de leis, mas não na forma de ação do poder público.


Devemos estar atentos ao fatos, vivenciados empiricamente por todos nós, dia após dia, não permitindo que distrações midiáticas, como a violência nos estádios e os protestos populares, desviem nosso foco daqueles que realmente são os responsáveis por tudo o que vem acontecendo:

 - Do Legislativo, só temos notícias de corrupção e correligionarismo, onde uns cobrem as imundícies dos outros, como vemos nos casos das fraudes nos investimentos da Petrobrás - entenda-se por acobertamento do PT e coligados às falcatruas promovidas dentro da estatal, versus fraudes no metrô de São Paulo - entenda-se por desvio de recursos e propinas promovidos por agentes públicos do PSDB e cia. Fora o uso da máquina pública para interesses particulares (Renan Calheiros e os aviões da FAB), etc.

- Temos no Judiciário um poder maculado, onde a indicação para os "Supremos" líderes, depende de politicagem e favores que são cobrados em momentos oportunos, como no caso do mensalão, em que a determinação de um culminou com a condenação de políticos poderosos dentro da Corte Federal, mas que pela vaidade, cumplicidade e conivência de outros, terão suas penas gradativamente atenuadas, senão extintas pelos institutos que possui o executivo, e, muito brevemente, estarão novamente sendo eleitos e ou empossados em cargos de confiança da cúpula administrativa de nosso país.

- Ainda, e mais triste, temos no Executivo o mais corrupto dos poderes. Dali saem os recursos bilionários pelos quais se digladiam os gestores dos três poderes, em todos os níveis de hierarquia e em todas as suas esferas, sendo que desses bilhões de reais, que saem do Trilhão arrecadado em impostos, de acordo com pesquisas de vários institutos, e não são devolvidos em forma de benfeitorias para o cidadão brasileiro, muito reais vão parar em contas fantasmas espalhadas pelo mundo. E com esse "poder de fogo", o Poder que seria do povo, pelo povo e para o povo, vai afundando o Gigante que ainda permanece "Deitado Berço Esplêndido", mas, pelo andar da corrupção, não por muito tempo, e muito menos "eternamente".


Cabe ao cidadão eleitor, ficar atento às essas armadilhas eleitoreiras que desviam nossa atenção das verdades sociais de nossos bairros, cidades e estados, que ficam acobertadas pelos movimentos ditos populares, e que, em algumas vezes, são situações criadas e incentivadas por elementos infiltrados nesses movimentos para direcionar ou lançar culpa em suas oposições políticas.


O verdadeiro culpado é o eleitor, que não cobra postura daqueles a quem elegeram. Quando as torcidas organizadas, os Black Bloc's, os Sem Teto e tantos outros movimentos, que muitas vezes usam da violência para expressar sua indignação, se colocarem diante do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal ou das sedes de seus Poderes estaduais e municipais locais, aí sim, verdadeiramente, estaremos provocando transformações sociais efetivas, pois nossos nobres líderes não poderão se acobertar de suas responsabilidades e deverão dar respostas efetivas às nossas  necessidades: Educação, Saúde, Infraestrutura e Justiça Social.

É nesse ninho de corruptos (lembrei do Jô Soares) que devemos concentrar nossas cobranças e ações para alcançarmos um futuro melhor, para nós e nossa descendência.

Palácio do Planalto

Congresso Nacional

Supremo Tribunal Federal

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Adeus à Carpintaria

Por: Max Lucado

As dobradiças da pesada porta rangeram quando ele a abriu. Com alguns passos, atravessou a carpintaria silenciosa e abriu as persianas de madeira para que um feixe de luz solar penetrasse a escuridão, desenhando um quadrado iluminado no chão empoeirado.

Olhou em torno da carpintaria. Deteve-se por um momento no refúgio do pequeno recinto que abrigava tantas lembranças doces. Equilibrou o martelo em sua mão. Passou os de dedos por entre os dentes afiados da serra. Acariciou a madeira suave do cavalete. Ele veio para dizer adeus.

Era o momento de partir. Ele ouvira algo que o fez saber que era hora de ir. Assim, veio sentir pela última vez o cheiro de serragem e de madeira cortada.

A vida era calma aqui. A vida era tão… segura.

Ali ele passou incontáveis horas de contentamento. Naquele chão empoeirado, brincou quando criança enquanto seu pai trabalhava. Ali José o ensinou a segurar um martelo. E naquele cavalete ele construiu sua primeira cadeira.

Fico imaginando o que ele pensou ao dar uma última olhada naquele espaço. Talvez tenha ficado parado por um tempo. Talvez tenha ouvido vozes do passado preenchendo o orar:

“Bom trabalho, Jesus.”

“José, Jesus, venham comer.”

“Não se preocupe, senhor, vamos terminar a tempo. Jesus vai me ajudar.”

Fico imaginando se ele hesitou. Se seu coração ficou dividido. Se rolou um prego entre o polegar e os dedos, antevendo a dor.

Foi na carpintaria que ele ter concebido seus pensamentos. Ali conceitos e convicções foram entrelaçados a fim de dar forma ao tecido de seu ministério.

É quase possível ver as ferramentas do ofício em suas palavras. É possível ver a exatidão de um fio de prumo enquanto ele proclama suas normas morais. É possível imaginá-lo com um lápis e um livro-razão enquanto pede por honestidade.

Foi ali que suas mãos humanas moldaram a madeira que suas mãos divinas haviam criado. E foi ali que seu corpo amadureceu enquanto seu espírito aguardava o momento certo, o dia certo.

E agora esse dia havia chegado.

Não deve ter sido fácil partir. Afinal de contas, a vida como carpinteiro não era ruim. Não era nada ruim. O negócio andava bem. O futuro era luminoso, e seu trabalho , agradável.

Em Nazaré ele era conhecido apenas como Jesus, o filho de José. Pode ter certeza de que ele era respeitado na comunidade. Era bom com as mãos. Tinha vários amigos. O favorito dentre os filhos. Sabia contar uma boa piada e o hábito de encher o ar com risos contagiantes.

Fico imaginando se ele quis ficar. “Poderia fazer um bom trabalho aqui em Nazaré. Acertar a vida. Construir uma família. Ser um líder da comunidade.”

Fico imaginando porque sei que ele já havia lido o último capítulo. Ele sabia que os pés que sairiam pela porta segura da carpintaria não descansariam até que fossem perfurados e pendurados numa cruz romana.

Veja, ele não tinha de ir. Ele possuía uma escolha. Poderia ter ficado. Poderia ter mantido a boca fechada. Poderia ter ignorado o chamado, ou pelo menos adiado. E tivesse ele escolhido ficar, quem saberia? Quem o teria culpado?

Ele poderia voltar como homem numa outra época, quando a sociedade não fosse tão volátil, quando a religião não fosse tão rançosa, quando as pessoas prestassem mais atenção. Poderia voltar quando a cruz estivesse fora de moda.

Mas seu coração não permitiria isso. Se houvesse hesitação por parte da sua humanidade, foi superada pela compaixão de sua divindade. Sua divindade ouviu as vozes. Ouviu o clamor desalentado do pobre, as acusações amargas do abandonado, o desespero vacilante dos que tentam salvar a si mesmos.

E sua divindade viu as faces. Algumas enrugadas. Algumas chorando. Algumas escondidas atrás dos véus. Algumas obscurecidas pelo medo. Algumas sinceras em sua busca.Algumas empalidecidas pelo tédio. Da face de Adão até a face do último bebê nascido em alguma parte do mundo enquanto você lê estas palavras, ele as viu todas.

E pode ter certeza de uma coisa: Dentre as vozes que ressoaram naquela carpintaria em Nazaré estava a sua voz. Suas orações silenciosas proferidas em travesseiros manchados por lágrimas foram ouvidas, antes mesmo de serem ditas. Suas perguntas mais profundas sobre a morte e a eternidade foram respondidas, antes mesmo de serem feitas. E sua necessidade mais extrema, sua necessidade de um Salvador, foi atendida, antes mesmo de você pecar.

E ele não apenas ouviu você; ele o viu. Viu sua face resplandecer quando você o conheceu pela primeira vez. Viu sua face corar de vergonha quando levou o primeiro tombo. A mesma face que olhou para você naquele espelho matinal, olhou para ele. E foi o suficiente para matá-lo.

Ele partiu por sua causa.

Guardou sua segurança junto com seu martelo. Pendurou sua tranquilidade junto com seu avental. Fechou as persianas da janela com o resplendor de sua juventude e trancou a porta com o conforto e a comodidade do anonimato.

Uma vez que lhe era mais fácil carregar nossos pecados do que carregar o pensamento de nossa desesperança, ele escolheu partir.

Foi difícil. Dizer adeus à carpintaria nunca é fácil.